quarta-feira, 26 de abril de 2017



MUSEU DO ROMANCE DA ETERNA;  MACEDONIO FERNANDEZ E A VANGUARDA ARGENTINA
(Marco Túlio Freire Baptista e Andrea da Conceição)


PORQUÊ MACEDÔNIO?

            O autor de Museu do Romance da Eterna, Macedonio Fernández, argentino, portenho, nasceu no final do século XIX, 1874, mas, após uma carreira advocatícia, despertou para a necessidade de dar fim à cultura finisecular, ou, pelo menos, espetá-la, torcê-la, subvertê-la!

            Macedonio, filho de uma família abastada, de Macedônio Fernandes (fazendeiro e militar) e Rosa del Mazo Aguilar, teve grande oportunidade para se dedicar, em determinados momentos, a longas reflexões. Estudou na Escola Nacional Central, onde também estudaram muitas outras grandes personalidades da Argentina. Ingressou na faculdade de Direito e Ciências Sociais em 1892 da UBA (Universidade de Buenos Aires), onde manteve contato com a Psicologia e a  Filosofia, em especial, a Metafísica. Já nessa época iniciou suas publicações de artigos e ensaios em periódicos de caráter científico. Também pela UBA recebeu o título de Doutor em Jurisprudência. Macedonio encaixava-se no perfil da elite dirigente de livres pensadores e anarquistas, perfeitamente antenado nos acontecimentos e movimentos mundiais. Ligado intimamente a Jorge Guilhermo Borges (pais de Jorge Luis Borges), dividiram estudos sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer. Destaca-se também, no seu círculo de amizades, as convicções sobre a obra de Herbert Spencer (1820-1903), forte opositor dos governos militares e ditaduras (ABRÊU, 2014).
            Nesse aspecto, logo cedo demonstrou seu interesse pelas questões político-sociais e a busca por soluções:

Depois de formado, ele (Macedonio) e outros colegas, entusiastas do ideário socialista romântico, inspirado em Lasalle e Saint-Simon, tentaram estabelecer uma comunidade utópica e anarquista numa ilha selvagem do Paraguai — em terras pertencentes à família Molina y Vedia —, primeira evidência do interesse candente pela atividade política (MICELE apud ABRÊU, 2014).
            Entre 1928 e 1952, Macedonio publicou apenas cinco livros, os quais foram muito celebrados por seus amigos, porém ignorados pelo público leitor. No entanto, sua singularidade era evidente e seus manuscritos se transformaram em livros, quase todos depois de sua morte e por esforço de seu filho Adolfo Obieta (GARCÍA, 2000).
            Macedonio Fernandes, advogado de formação, acabou se descobrindo escritor, mas como ele mesmo percebe, seu círculo de leitores ficou bastante restrito:
Como no hallo nada sobresaliente que contar de mi vida, no me queda más que esto de los nacimientos, pues ahora me ocurre otro: comienzo a ser autor. De la abogada me he mudado, estoy recién entrado a la literatura y como ninguno de la clientela mía judicial se vino conmigo, no tengo el primer lector todavía (FERNANDES apud GARCÍA, 2000).
            Certamente o círculo de leitores de Macedônio era uma pequena, porém ativa intelectualidade. Seus livros não parecem ter sido para causar sensação ao público comum, mas para sensibilizar os grupos intelectuais, num sentido revolucionário de transformação de ideias. Aliás, nesse sentido, sua influência talvez se fizesse mais pela suas palavras faladas do que por seus escritos. Segundo Borges: "su. conversación era más importante que su obra'' (BORGES apud GARCÍA, 2000). O que isso significa? Ou melhor, o que significa isso dito sobre um escritor que influenciou Borges e toda a vanguarda argentina? Talvez a resposta esteja no fato dele pertencer ao círculo íntimo da elite literária, podendo expor suas ideias verbalmente, olho-no-olho e que, os demais que as escrevam! Talvez ele mesmo se reconheça nas ideias “genuínas” dos demais autores. Fato é que Macedonio acredita que não há ideias genuínas:
Uma romena cantou um trecho de música do povo e depois encontrei dez vezes o trecho em diferentes obras e autores dos últimos quatrocentos anos. É indubitável que as coisas não começam; ou não começam quando são inventadas. Ou o mundo foi inventado antigo. (FERNANDES, 2010; prólogo 4, § 2ᵒ)
            Nesse aspecto, Macedonio foi criado num lar propício para desenvolvimento de novas ideias, visto que a casa dos Fernandez sempre foi lugar de reuniões de escritores, intelectuais e políticos, o que teria deixado marcas em sua oratória, considerada inteligente e brilhante, aliás muito alardeada no grupo altruísta que fizera parte nos anos de 1920 (ABRÊU, 1914).
            Em 1921, quando Jorge Luis Borges retornou da Europa trazendo na sua bagagem a experiência do Ultraismo[1], logo se colocou a fundar uma revista que agregasse novas tendências chamada Proa. Além de Macedonio Fernandes, Borges também contou com Gonzáles Lanusa e Nora Borges (sua irmã e ilustradora da revista). Foi nessa revista que os vanguardista argentinos encontraram verdadeiro espaço para desenvolver seus pensamentos (D-REVISTAS, 2016).
            Conforme Sánchez (1977) Borges declarou no enterro de Macedonio que ele, Borges, o havia plagiado, mas que tal afirmativa não era tão simples pois que Macedonio Fernandez havia influenciado fortemente toda a vanguarda argentina, especialmente os portenhos e os componentes das revistas Marin Ferro e Proa.
            Da mesma forma, movimentos como o criolismo e o proesperpentismo têm seus primeiros passos em Macedonio. Também o autor espanhol, Ramón Gómez de la Serna, criador do gênero Gregerías, confessa que, na verdade, este gênero devia se chamar Macedonerías (SÁNCHEZ, 1977).
            Outro motivo para Macedonio ser eleito representante da vanguarda argentina é o ecletismo de sua obra. Seja ensaio, artigo, romance ou conto, ele transita por gêneros variados e diversas áreas do conhecimento, mas acaba num limite muito tênue entre a literatura e a filosofia (ABRÊU, 2014). Enfim, é um autor completo e marcante para a vanguarda argentina.

PORQUÊ O MUSEU DO ROMANCE DA ETERNA?

            Dentre as obras de Macedonio Fernandez, o Museu do Romance da Eterna talvez seja o que mais impacto causou devido a mudança de paradigma estético do gênero romance e a prolongada promessa de o publicar, a qual só veio postumamente. Vale apena mencionar que, também na obra, o autor posterga ao máximo o início do romance para o leitor, acrescentando cinquênta e oito prólogos, uma nota pós-prólogo e duas observações antelivro. A descontinuidade vertiginosa de sua obra está fortemente marcada também por estes prólogos que foram redigidos em épocas diferentes e não estão numerados segundo um critério cronológico.
            A duração da elaboração do livro, com muitas interrupções se estendeu desde o ano de 1904 até o final de sua vida (1952), portanto é capaz de carregar em seu bojo características de todo o período vanguardistas argentino, bem como as mudanças, transformações,  intenções e teorias. De fato, é uma obra eclética que abarca diversos campos do conhecimento, dentre eles a psicologia, a filosofia, a religião, a metafísica e outros. E é capaz de exprimir o esforço teórico que seu autor desenvolveu por quatro décadas no sentido de elaboração de algo novo, porém genuíno dentro do pensamento literário latino-americano.


                        Edição brasileira da Cosac Naify, 2010

UM POUCO DE VANGUARDA

            Jorge Schwartz (1995) nos dá um bom panorama do que foram os movimentos de vanguarda na América Latina. Muitos escritores que, no início do século, se aventuraram pela Europa, acabaram por retornar aos lares latino-americanos durante a Primeira Grande Guerra, recheados de ideias vanguardistas europeias, são os Ismos europeus. Estes movimentos expressaram o esgotamento do modelo liberal e a incapacidade de implantação dos princípios democráticos. Contudo estes Ismos foram assimilados de maneira criativa e adaptado às realidades do subcontinente americano, iniciando um movimento peculiar, as vanguardas da América Latina. Estas vanguardas assumiram feições características predominantemente na década de 1910 e 1920, com algumas variações temporais que, no entanto, marcam duas fases bem distintas: a primeira fase é a estética, na qual se discutiu fortemente a linguagem. Nesse bojo, toda a literatura finisecular foi colocada em cheque! A forma consagrada, o realismo, foi subvertida para  novo, o inusitado, o latino americano! Uma segunda fase, foi marcada pela entrada em cena das discussões de projetos ideológicos. Nesse sentido, comunismo, socialismo e anarquismo foram movimentos que tenderam a se fundir com as vanguardas, garantindo uma politização e um posicionamento perante o arcabouço liberal.

            Embora estas vanguardas tenham, em sua maioria, encontrado seu ocaso no final da década de 1920, seus ecos se fizeram ouvir nas décadas seguintes. A este período sucedeu, por quase toda parte, um período de ditaduras baseadas em golpes militares. Estes novos governos totalitários procuraram absorver as vanguardas já que estas exerciam grande poder sobre as massas, principal alvo de tais governos. Estas massas agora deveriam ser doutrinadas, organizadas e disciplinadas pelos Estados. Nesse embate, os desdobramentos das vanguardas ocorreram com forte recrudescimento das lutas ideológicas: fascismo, comunismo, liberalismo, socialismo e anarquismo.


VANGUARDA ARGENTINA

            A vanguarda argentina se diferencia da vanguarda europeia no sentido de que esta procura romper com os paradigmas através de uma radicalidade estética, moral e social, ao passo de que a argentina buscou atuar enfaticamente no sistema literário e no espaço sócio cultural no qual rompe paradigmas. Ou seja, a revolução estética afeta não apenas a produção literária, mas também as expectativas dos leitores (LAGO, 2014;158).
            Nas primeiras décadas do século XX, ocorreu na Argentina uma explosão demográfica urbana, sentida principalmente em Buenos Aires. Segundo Sarlo (2007), em 1914, 52,7% da população da Argentina se concentrava no meio urbano e Buenos Aires contava com mais de dois milhões de habitantes. Nesse contexto, as revistas passaram a ser um instrumento privilegiado de informação e literatura, portanto o melhor meio de comunicação dos autores com o público leitor, além de quebrar, em parte, com o tradicionalismo do livro. Dessa forma, muitos escritores que estavam em busca do novo, se dedicaram a produzir material para essas revistas. É o caso de Jorge Luiz Borges, de Macedonio Frenandez e de muitos outros. Este subgênero periódico se consagrou nas suas formas básicas de miscelâneas e curiosidades. Nas palavras de Sarlo:
..., la miscelánea es la modalidade según la cual se organiza la copresencia, en un mismo número, de una diversidad vastísima de curiosidades nacionales y extranjeras, [... ] La micelánea aparece como “forma” de las curiosidades, pero es tambien por definición, una forma de lo relativamente breve, de lo que puede ser leído de una centada, como la entrega del folletín, el poema e el cuento. Lectores de tramos breves son los consumidores de este formato, que exige impacto, familiaridad lingüística y temática (o, por lo menos, una de las familiaridades) y resoluciones claras de los nudos argumentales, así como de las problemáticas ideológica, psicológica o moral que pongan en escena (SARLO, 2007; 65-67).
            Na questão literária, principalmente no gênero de romance, persistia a tendência do Realismo a qual a vanguarda argentina procurou superar durante a primeira metade do século XX, perseguindo um novo modelo, no entanto, ainda persistindo seus padrões na segunda metade deste século (MINEIRO, 2013).
            A Argentina teria entrado oficialmente no universo vanguardista entre 1921 e 1922, com a edição da revista Prisma. Borges propunha aos intelectuais argentinos a transmutação da realidade palpável do mundo em realidade interior e emocional (LAGO. 2014)

MUSEU DO ROMANCE DA ETERNA

            Considerando que Macedonio Fernandez começou a escrever este romance em 1904, postergou, refez, costurou, cerziu cada página por toda a sua vida, morrendo em 1952, sem tê-lo concluído de fato, críamos poder dizer que este foi o romance de sua vida! No entanto, não é verdade! Não é verdade, primeiramente pelo fato de ter sido publicado postumamente, em 1967. Na verdade, a edição brasileira que chegou em nossas mãos (a primeira e única) só foi publicada em 2010! E chegou-nos às mãos por um valor muito elevado! Caro por ter sido publicada em quantidade, cremos, pequena e ter se esgotado rapidamente! Parece ser artigo de luxo! Uma descortesia com o leitor, nas próprias palavras de Macedônio:
Não há nada pior que as coisas feitas com pressa, a não ser a fácil perfeição da solenidade. Este será um livro feito eminentemente assim, da máxima descortesia que se pode incorrer com o leitor, salvo outra descortesia maior ainda, e tão comum: a do livro vazio e perfeito (FERNANDEZ, 2010, prólogo 5, § 1ᵒ).
            Ele deixa claro que não tinha a menor intenção de disponibilizar sua obra facilmente. Pelo contrário, o leitor deveria se esforçar para lê-la. Participar ativamente no exercício de não acessá-la!
Além disso eu havia projetado que esse romance fosse publicado depois de vinte e dois anos em que se sabe que o petróleo terrestre terá se esgotado totalmente, porque uma advinha me garantiu que estava escrito na providência do mundo que que ao mesmo tempo se esgotaria a provisão de bocejos de leitor com que se conta no presente (FERNANDEZ, 2010, prólogo 6, § 2ᵒ.).
            Só por isso já seria a obra de sua morte! Mas isso também não é verdade!
            Se por um lado, Macedonio dedicou um prólogo a sua personagem (Prólogo à Eterna – prólogo 4), de alguma forma ele procurou incorporar características de seus personagens, que aliás não assumem características humanas intrínsecas!
E mais, tenho certeza que ninguém vivo entrou na narrativa, pois personagens com fisiologia, além de muito perturbados por cansaço e indisposição – por isso não se vê protagonistas adoecerem e se afastarem para a cura, mas somente representam adoecerem como parte de seu trabalho e continuarem figuração ativa de doentes e moribundos - , são de estética realista, e a nossa estética é a inventiva (FERNANDEZ, 2010, prólogo 7, § 2ᵒ).
            De fato, seus personagens têm características de seres não-vivos, inclusive o próprio autor que no romance se chama Presidente do Romance. Por estas características não podiam ter nomes de vivos, nem de mortos, portanto chamam-se: Eterna, Quiçagênio, Doce-Pessoa, Deumamor, Simples, Viajante, o Homem que fingia viver, Metafísico e Amada de Deumamor. Sim, tem o Frederico, o Menino da Longa Vara, mas esse ficou de fora do romance.
            Portanto, parece mais adequado dizer que esta obra seria a obra de sua não-vida e sua não-morte! Ou, obra, de alguma forma, eterna! O que é estranho, sendo a primeira do gênero, o gênero de “Romance Bom”!
            Como dissemos, a gestação do romance se deu por um longo período, no qual compreende toda a vanguarda argentina, mesmo sendo publicado posteriormente. Segundo Abrêu (2014) é considerado pela crítica como um modelo da ficção vanguardista argentina, a qual surgiu em contraposição à estética realista ainda vigente na virada do século XIX para o século XX.
            Conforme Mineiro (2013) o Museu apresenta-se como um romance sobre o romance, problematizando a sistematização do gênero, recusando a postura do realismo consagrada no final do século anterior e se integrando no contexto de importantes formulações teóricas da primeira metade do século XX, sendo contemporâneo a teóricos sobre romance, como Bakunin, Lukács e Auerbach. No entanto, por suas características também se aproxima da linguagem da segunda metade do século XX.
            A variedade de temas abordados faz com que o romance se ligue ao momento de transformação do pensamento na Argentina:
..., o Museo estabelece sua polifonia ao comportar discursos de diferentes áreas temáticas e ao se abrir às intervenções de personagens e de leitorespersonagens que questionam ou validam seus princípios estéticos. (...) aparecem reflexões a respeito de metafísica, jogos com conceitos da matemática e da física e considerações sobre política e economia que se entrelaçam como um coro de discursos interdisciplinares (MINEIRO, 2013; 104).
            O exercício textual de macedonio afronta o realismo em sua principal característica, a verossimilhança, sendo um movimento contrário ao desenvolvimento dessa forma de narrativa (ABRÊU, 2014).
A tentativa estética presente é uma provocação à escola realista, um programa completo de desacreditamento da verdade ou realidade do que o romance conta, e somente a sujeição a verdade da Arte, instrínsica, incondicionada, auto autenticada. (MACEDONIO, 2010; prólogo 16, § 1ᵒ)

Além da técnica, há a série de artimanhas de inverossimilhanças e desmentido de realidade do relato. Isso é doutrinário e oferece sua mais destacada execução quando aplica enunciativamente, não artisticamente, o fato que nunca ocorreu mas que foi deliberado com plenitude em uma consciência vivente, a do pai de Doce-Pessoa, e que constitui o fato definidor do destino de Doce-Pessoa. (MACEDONIO, 2010; prólogo 16, § 5ᵒ)

Somente a arte realista que não é belarte, a arte de Anna Kerênina, Madame Bovary, Quixote, Mignon, carece da “personagem”, quer dizer, estes não sonham ser, porque creem ser cópias. (MACEDONIO, 2010; prólogo 17, § 3ᵒ)
            Outras importantes características do Museu que, embora menos sutil, impulsionam em direção a uma nova literatura são as características crioulla e nacionalista da obra. Por diversas vezes Macedonio conta a beleza e a originalidade de sua cidade natal, Buenos Aires:
Nas formas tão sensuais e inocentes de Doce-Pessoa se olhava o resplendor de Buenos Aires, suprema cidade desgarrada pelas sombras de campos sem limites, vivendo às escuras de seu destino, como o transatlântico, iluminado, na vasta escuridão do mar em cujo seio adentra; em ambos se vive sem noção de rumo, (...) há para todos a oportunidade do “lançamento” e das duas saídas do Quixote para a Paixão. Buenos Aires, a Paixão, Doce-Pessoa... (FERNANDEZ, 2010; 134-135)
            Antecipando também o que seria a segunda fase das vanguardas, Macedonio Fernandez procura inserir elementos de crítica ao capitalismo e ao liberalismo desenfreado que destrói a estrutura econômica nacional. No prólogo 14, ele menciona um personagem, o qual não vai entrar no romance, o menino de longa vara. Isto porque não se faria de rogado em perturbar tudo e, de vez em quando, dar um golpe com a vara. Assim, ele diz que é o único romance onde não se deixa entrar o menino de longa vara, portanto, o é o romance do menino deixado longe. Macedonio só volta a falar do menino, agora dando o nome, Frederico, no prólogo 29.
O menino Frederico não deixou de tentar a luta econômica. Abriu com todos os amigos e amigas uma Fábrica de Barulhos. Obtinham metais, zinco, latão ou vidros tratados a distância com agentes minerais pelos melhores derrubadores de entulho entre seus operários. O transporte fácil e a grande saída de mercadorias assegurava a prosperidade. A catástrofe financeira de 1921, as oscilações de Stinnes, a concorrência colossal da Standard Oil com a Dutchshell, os desaforados marcos papeis... o certo é que apesar da grande saída, não havia um barulho no local imediatamente após a manufaturado; a empresa de Frederico não pode resisitir [...] se evitou uma apresentação de quebra obrigatória seja pela perturbação de Stinner, a instabilidade dos câmbios, os marcos ilimitados, a obscuridade dos catorze pontos de Wilson...(FERNANDEZ, prólogo 29, § 6)
            Talvez o menino Frederico, o que foi impedido de entrar no romance, seja a indústria nacional argentina, talvez seja a mexicana ou a própria revolução que está mas não está. De qualquer maneira, Macedonio deixa claro sua concepção quanto a falência do modelo liberal apontando a situação de monopólio, na guerra do petróleo, das grandes multinacional (americana vesus inglesa), a falência econômica da Alemanha no final da guerra, além de ironizar o destino dos “quatorze pontos” do presidete americano, Woodrow Wilson, para a paz em 1918, os quais eram condições para a rendição alemã, mas apenas três se salvaram no Tratado de Versalhes (BURNS, 1983; 863).

CONCLUSÃO

            Macedonio Fernandes, embora tenha sido consagrado pelo movimento vanguardista argentino como patrono desse movimento, pode ser considerado um autor de transição que deu os primeiros passos, orientações e linhas mestras principalmente no que tange ao gênero literário romance na Argentina. Sua mais famosa obra, Museu do Romance da Eterna, em especial nos seus inúmeros prólogos, que adiam exaustivamente o início do romance, pode e deve  ser considerado como um filme ou itinerário, embora descontínuo, do desenvolvimento dessas ideias vanguardista durante toda a primeira metade do século XX, principalmente no que diz respeito a estética e do uso da linguagem, além de introduzir importantes críticas políticas, antecipando a segunda fase vanguardista. Da mesma forma o uso de personagens não viventes, inverossímeis, além de um autor, presidente do romance, que participa da história, põem a baixo o realismo da fase anterior.
            Suas múltiplas influências, alegada por outros autores, ou por ele mesmo, demonstram o grau de penetração de suas ideias, não só no círculo literário de escritores, mas também no público leitor que é capaz de refinar ou revolucionar seus gostos e opções. Se pudemos verificar características como inverossimilhança, nova estrutura estética, nacionalismo e crioulismo no Museu, além de verificar vivenciar a nova estruturação teórica que ganhou força para a orientação literária na Argentina Vanguardista, não exageram em dizer que obra e autor se revestem de importância histórica ímpar para a compreensão das transformações intelectuais, artísticas e políticas do período.



REFERÊNCIAS


ABRÊU, Erica Thereza Farias. Macedonio Fernández e as tramas da (des)continuidade. Dissertação de mestrado para UFPR. Recife: 2014.

CAPELATO, Maria Helena Rolim. Multidões em cena; propaganda política no varguismo e no peronismo. 2 ed. São Paulo: UNESP, 2008.

BURNS, Edward McNail. História da Civilização Ocidental. Porto Alegra: Editora Globo, 1983.

D-REVISTA Magazine. Revista Proa, la historia de una pasión. Disponível em: < http://d-revistasmagazine.com/2013/07/revista-proa-la-historia-de-una-pasion> Acessado em: 07 dez. 2016.

GARCÍA, Germán. Macedonio Fernandes; la escritura en objeto. Buenos Aires: Adriana Hidalgo Editora, 2000.

FERNANDEZ, Macedonio. Museu do Romance da Eterna. Tradução de Gênese Andrade. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

MINEIRO, Imara Benfica. Excêntricos e modernos: o Museo de Macedonio e suas afinidades literárias. Tese de doutoramento, UFMG. Disponível em: Acessado em: 11 dez. 2016.

SÁNCHEZ, Luis Alberto. Macedonio Fernandez. In: Inti: Revista de Literatura Hispánica, n. 5, v. 1. Venezuela, 1977. Disponível em: Acessado em: 07 dez. 2016.

SARLO, Beatriz. Escritos sobre literatura argentina. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina S. A., 2007.

SCHWARTZ, Jorge. Vanguardas Latino-Americanas; polêmicas. Manifestos e textos críticos. São Paulo: EDUSP, 1995.

LAGO, Mayra Coan. A “nova” Argentina (re) vista: breves considerações acerca das representações modernas portenhas por um paulista. In: Revista Interseções, v. 16, n. 1, Rio de Janeiro, , jun. 2014, pp. 148-173.



[1] Ultraísmo - Vanguarda poética surgida em Madrid em 1918, que tinha como principal objetivo sintetizar todas as tendências da vanguarda mundial com o mesmo desejo de ruptura e de novidade. WIKIPEDIA. Utraísmo. Disponível em: Acessado em: 07 dez. 2016.