terça-feira, 4 de outubro de 2011

GRIPE ESPANHOLA, 1918 (INFLUENZA PANDEMIC OF 1918)


   A terrível pandemia conhecida como Gripe Espanhola foi um divisor de águas para a humanidade, bipartindo nossa história em antes e depois do ano de 1918: aqueles que sobreviveram procuraram esquecer as desoladoras cenas que se passaram em todas as partes do Globo Terrestre. Progresso científico e tecnológico deu a vez ao primitivismo dos corpos sendo queimados a céu aberto ou enterrados em covas coletivas. A dimensão da tragédia dificilmente poderá ser descrita com exatidão. As precárias estimativas de óbitos giram entre 20 e mais de 100 milhões de pessoas. Poucas famílias no Mundo chegaram, ou passaram o ano seguinte ilesas.



CARACTERÍSTICAS DA GRIPE ESPANHOLA

                Os fatores mais marcantes da Gripe Espanhola se encontram na relação Morbidade/ Mortalidade. Sendo a morbidade a capacidade de uma doença de infectar uma parcela de uma população em dado período de tempo, temos que neste caso cerca de um quarto da população mundial foi contaminada, daí a classificação pandêmica. Dados mais precisos são encontrados nos registros norte-americanos, onde consta que de uma forma geral 25% da população foi atingida, mas os setores de grande convívio próximo, como as Forças Armadas, foram os mais afetados. Na marinha 40% de seu efetivo adoeceu, no Exército, 36%.  Quanto à mortalidade, morte propriamente dita, tem-se que a taxa de mortalidade figurou na casa de 2,5% dos contaminados; uma taxa muito elevada, comparando-se com uma gripe comum, 0,1%, temos uma razão 25 vezes maior. As estatísticas são imprecisas devido à dificuldade de se diagnosticar naquela época a causa do óbito, mas se aceita um número entre 20 e 100 milhões de pessoas por todo o Mundo. Para efeito de comparação, a Primeira Guerra Mundial, reconhecida como uma das mais sangrentas guerras da humanidade e que ainda não havia terminado, produziu cerca de 9,2 milhões de mortos em combate. A taxa de mortalidade da Gripe Espanhola supera a de qualquer outra doença em igual período.

                Não demorou muito para que os médicos e enfermeiros pudessem estabelecer um padrão de sintomas que caracterizavam a Gripe: a pele da pessoa assumia uma coloração castanha arroxeada, os pés ficavam pretos, começava a tossir sangue deixando a saliva tingida, uma falta de ar sufocava a vítima em agonia até a morte. De fato, a falta de ar era semelhante ao afogamento, com os pulmões inchados de muco sanguinolento.

                O mapa-etário das vítimas descreve uma incrível curva na forma de W, tendo como picos crianças até 5 anos, idosos de 70 a 74 anos e um pico inesperado entre 20 e 40 anos de idade. Jovens fortes e atléticos também caíam doentes e morriam rapidamente; talvez fosse melhor interpretar esta curva de mortalidade como: ninguém escapa!


AS ORÍGENS

         As origens da pandemia de gripe, ou Influenza, de 1918 são muito obscuras. Porém registram-se duas ondas da gripe em 1918. Uma com características extremamente leves que logo passou sem deixar grandes reflexos e, uma segunda, que, como um furacão, varreu toda a face da Terra, deixando seu rastro de morte por onde passou.

                Em fevereiro de 1918 a pequena cidade balneária da Espanha, San Sebatián experimentou a velha Influenza di freddo comum em todos os invernos, principalmente nos trópicos temperados. Nada que pudesse alarmar o Mundo, três dias de febre, dores e mal-estar. Esta gripe tinha algo de estranho, atacava mais os jovens saudáveis e poupava os velho e crianças, normalmente as primeiras vítimas. Sua morbidade (capacidade de infectar) extremamente elevada, logo deixou todos na cidade doentes; em março atingiu a 15º Cavalaria deixando este grande grupo doente em viagem pela Europa. Os militares espanhóis a chamaram de “febre dos três dias”, porém sua rápida disseminação fez com que o resto do Mundo logo a chamasse de Gripe Espanhola. Dois meses depois parecia que todos na Espanha estavam doentes, cerca de oito milhões de pessoas foram registradas com a gripe, inclusive um terço da população de Madrid e o Rei Afonso XIII. Talvez nem tenha surgido na própria Espanha, pois quase que simultaneamente apareceram relados por todo o hemisfério norte, contudo, muitos países procuraram negar a existência da gripe, até para não parecerem fracos nesta reta final da 1º Primeira Grande Guerra. A Espanha, como país neutro não se preocupou em esconder o fato e, talvez por isso, para este país convergiu o demérito da origem deste mal.

                Ainda em abril a gripe cruzou a fronteira com a França e assolou as tropas deste país e da Grã-Bretanha, lá estacionadas. Todos os exércitos em guerra se viam com a necessidade de reverem suas estratégias, pois suas tropas doentes frustravam qualquer plano, sentiu-se um pouco de paz na guerra enquanto as tropas estacionavam para se tratar. Os alemães a chamaram de febre de Flandres.

                Até a primavera de 1918 todos os países europeus, da Ásia e Estados Unidos já haviam contraído a doença. Sua grande morbidade contrastou com a baixa mortalidade, por mais que as vítimas ficassem acamadas por alguns dias, poucos casos foram fatais. Enquanto o hemisfério norte era assolado, grandes áreas do hemisfério sul haviam sido poupadas (era verão no hemisfério sul), tais como toda a África, toda a América do Sul e excepcionalmente no norte, o Canadá.


Enfermaria improvisada

                Com a chegada do verão no hemisfério norte a onda de gripe dissipou-se tão rapidamente quanto aparecera. O Mundo respirou aliviado por algum tempo.

                Este período de calmaria duraria pouco, alguns meses depois a gripe estaria de volta, surpreendendo a todos com seus primeiros passos nos lugares que haviam sido poupados pela primeira onda.


A ONDA DE MORTE

                A nova onda de gripe atacou com incrível força, aparecendo primeiro onde a primeira onda havia poupado. Desta forma a Índia, o sudeste Asiático, o Japão, a China, grande parte do Caribe, América Central e América do Sul sofreram nestes momentos iniciais. Daqueles contaminados, 20 por cento assumia uma forma branda da doença, mas dos restantes 80 por cento, a doença era implacável. Destes assumia duas formas diferentes: alguns ficavam imediatamente à beira da morte logo que contraíam o mal, com grandes deficiências respiratórias devido aos pulmões estarem cheios de líquido, tinham delírios devido à febre e logo ficavam inconscientes. Em poucos dias ou mesmo horas estavam mortos. Uma segunda forma, apresentava-se como uma gripe comum, com calafrios, febres e dores musculares, porém sem indicar uma enfermidade maior. Ao chegar ao quarto ou quinto dia, bactérias penetravam nos pulmões infestando-os; assim, o doente desenvolvia uma forte pneumonia que, ou o mataria, ou obrigaria a um prolongado tratamento.

                Os Estados Unidos foram alcançados pela segunda onda em agosto, provavelmente trazida por um grupo de marinheiros que desembarcaram em Boston. No dia 8 de agosto, oito homens pegaram a gripe, no dia seguinte 58, seguindo a progressão, uma semana depois o primeiro homem foi enterrado no Hospital Municipal de Boston. No dia 8 de setembro a gripe chegou a Fort Davens, Massachusetts. O acampamento militar “Camp Davens” localizado próximo de Boston, com cerca de 50.000 homens, registrou cerca de 100 óbitos por dia durante várias semanas.


De Camp Davens saiu um dos registros médicos mais claros da Gripe Espanhola: “Duas horas após darem entrada, têm manchas castanho-avermelhadas nas maçãs do rosto e algumas horas mais tarde pode-se começar a ver a cianose estendendo-se por toda face a partir das orelhas, até que se torna difícil distinguir o homem branco do negro. A morte chega em poucas horas e acontece simplesmente como uma falta de ar, até que morrem.” Logo a gripe tomou todo o estado e depois todo o país. Doze mil americanos morreram de gripe no mês de setembro e todos os acampamentos militares estavam de quarentena. Todas as escolas, teatros, salões de jogos e outros lugares públicos foram fechados numa tentativa de barrar a disseminação da doença. Na cidade da Filadélfia morreram 759 pessoas em um único dia (10 de outubro).

                O desespero para impedir o progresso da pandemia produziu cenas inusitadas, tais como jogos de basebol onde todos usavam máscaras, torcedores, lançadores, batedores, todos os demais jogadores.

                A quantidade de mortos trouxe o problema de o quê fazer dos corpos. Logo faltaram caixões e os corpos ficavam estocados vários dias em necrotérios improvisados, até que se pudesse dar um destino. Trens eram utilizados para transportar milhares de corpos para locais distantes, onde seriam incinerados ou enterrados em grandes covas coletivas. As imagens bárbaras superavam as vistas pelos soldados nos campos de batalhas europeus. Mais uma vez o mundo viu horrorizada a humanidade regredir aos tempos medievais, quando corpos de parentes eram abandonados nas casas vazias, ou levados para serem deixados nas calçadas, numa tentativa frenética de livrar do mal os entes que permaneciam em casa.


Covas coletivas na Philadelfia

                No dia 21 de setembro os cientistas americanos anunciaram as boas novas, o agente causador da doença fora identificado, era o bacilo Pfeiffer, uma bactéria. Isto deu uma sensação de alívio, pois em pouco tempo os pesquisadores poderiam produzir um remédio capaz de combater o mal. Mas isso não aconteceu. Testes realizadas com material contaminado, que fora filtrado ao ponto de não permitir que bactérias passassem, mostrou que mesmo assim a transmissão continuava. O causador não poderia ser o bacilo de Pfeiffer! O inimigo era um vírus, o qual naquela época era impossível de ser isolado e estudado.

                As mortes continuaram por todo o Globo até que, como uma nuvem, a Gripe Espanhola desapareceu; dissipando-se sem deixar respostas às inúmeras perguntas dos cientistas. O vírus, que não pôde ser encontrado e isolado, morreu junto com os tecidos putrefatos das últimas vítimas de 1918. O medo permaneceria, pois se não foi possível identificar o vírus, não seria possível produzir uma vacina que pudesse prevenir uma nova onda mortal.




A BUSCA POR UMA CURA

                O medo de uma nova onda mortal nunca abandonou o imaginário dos cientistas. Era certo que se tratava de um vírus, porém o primeiro vírus a ser descoberto, pouco tempo antes, foi o da Febre Amarela em 1899. Este fora descoberto por exclusão, pois o microscópio eletrônico ainda não tinha sido inventado. Mais tarde descobriu-se o porquê do vírus se instalar nos pulmões; era porque estas células são as únicas que possuem uma enzima que o permite romper uma de suas proteínas durante o processo de elaboração de novas partículas virais.

A desconfiança de que a Gripe Espanhola se relacionava com a gripe suína sempre foi muito forte, devido ao fato de no outono de 1918 (no início da pandemia de Gripe Espanhola), milhões de porcos terem adoecido de uma estranha gripe que afetava os pulmões dos animais.

Em 1934 descobriu-se que o vírus da gripe suína poderia ser inoculado em furões e destes em ratos brancos, produzindo-se variantes, ou mutações, que pareciam ser cada vez mais agressivas.

Partiu-se para o estudo dos anticorpos encontrados no sangue dos que sobreviveram à gripe em 1918. De fato, as pesquisas demonstraram que aquelas pessoas realmente possuíam anticorpos capazes de combater o vírus da gripe suína.

O ano de 1936 foi marcado pela descoberta de que  o vírus da gripe poderia ser cultivado inoculando-o em ovos de galinha fertilizados. Era fácil e barato, só era preciso os ovos e uma incubadora, daí farto material para os estudos virais. Melhor que isso, os vírus depois de mortos funcionavam como vacina para a gripe. Assim era possível fabricar-se  grandes quantidades de vacina. De fato, em 1944, os norte-americanos foram os primeiros em toda a história a serem imunizados contra um surto de gripe.

Os cientistas descobriram que o vírus da gripe depende de dois tipos de proteínas para entrar e sair das células: hemaglutinina e neuraminidase. São estas proteínas que definem o tipo de gripe, por isso os cientistas passaram a denominar o vírus segundo os tipos de proteínas presentes. A hemaglutinina ocorre em 15 formas básicas diferentes, enquanto que neuraminidase ocorre em nove. Assim o vírus da pandemia de 1946 foi chamado de N1H1 (frequente em suínos), posteriormente o vírus de 1918 também seria identificado como N1H1); a pandemia de 1956, do tipo N2H2; a pandemia de 1968 apresentou um vírus que evoluiu da gripe de 56, o H3N2 (vírus mais comum hoje em dia). Em Hong Kong em 1997 o vírus N5H1 passou-se diretamente das aves para o homem, infectando 18 pessoas e matando seis.


CAÇADA AO VIRUS MORTAL

                Muita coisa se descobriu sobre vírus até os anos 50, mas sem uma amostra deste os cientistas não poderiam estudá-lo e produzir uma vacina eficiente para o caso de uma nova onda. Com este pensamento, em 1951, duas expedições americanas foram ao Alasca com o objetivo de se conseguir amostras de tecidos infectados que estivessem preservados pelo gelo. Uma delas foi uma missão militar que custara aos cofres públicos US$ 300.000,00 (uma soma extraordinária para a época). Ambas as expedições focaram a cidade portuária Nome, pois possuíam um bom registros dos óbitos e seu terreno era permanentemente congelado. Porém havia um rio que mudara de curso no decorrer dos anos, passando próximo ao cemitério, desta maneira as expedições foram frustradas, pois só o que restava eram aglomerados de ossos. A outra expedição seguiu para Wales, onde também fracassou. O responsável por esta expedição, Johan V. Hultin, não desistiu e seguiu para Brevig, onde finalmente encontrou um cemitério intacto e pode tirar amostras de tecido pulmonar congelado.

                Mesmo de posse destas preciosas amostras Hultin não conseguiu reviver o vírus da gripe Espanhola. Injetou o material biológico em centenas de ovos, pingou nas narinas de diversos animais, mas o resultado foi sempre o mesmo; o vírus estava morto e não poderia ser replicado para estudos. Seus planos teriam que ser adiados para o futuro.

                Muito tempo se passou até que em 1995 o Dr. Jeffrey Taubenberg teve a idéia de procurar no banco de tecidos do Instituto de Patologia da Forças Armadas (norte-americana), onde ele trabalhava, amostras de tecido de pessoas que morreram com a epidemia de 1918. Incrivelmente, após conseguir a autorização, solicitou ao depósito do instituto e lá estavam, três amostras de pulmões de soldados que morreram de gripe no outono de 1918. Conservadas em cera, formando uma lâmina do tamanho de uma unha de polegar, guardadas em uma caixa de papelão. Por quase setenta anos estavam as amostras à disposição, sem que fosse necessário uma custosa expedição a lugares inóspitos e gelados. De duas amostras conseguiu isolar o vírus da gripe. Tautenberg realizou pesquisas comparativas com o vírus de outras pandemias e finalmente seu artigo para a science sobre a gripe de 1918 foi publicado em março de 1997. Embora seus resultados parecessem bastante convincentes prevaleceu a crítica de que o formaldeído poderia ter alterado a composição genética do vírus, já que as amostras ficaram embebidas neste composto por mais de setenta anos.

                Mais ou menos no mesmo período a pesquisadora Kirsty Duncan, bem impressionada pela obra de Alfred Crosby, American’s forgottan Pandemic, se lançou numa aventura para, da mesma forma que Hultin, tentar encontrar amostras congeladas do vírus em tecido preservado pelo gelo. Sua aventura foi um complexo projeto de exumação de mineiros mortos pela gripe de 1918 e enterrados em Sptzbergen, Noruega. O projeto demorou cinco anos para ser executado e custou cerca de meio milhão de dólares (só foi realizado em agosto de 1998) e no final resultou em tecidos putrefatos, sem condições de encontrar qualquer vírus.

                No meio desta efervescência pela busca ao vírus perdido, Johan V. Hultin foi contactado por Tautenberg que o convenceu a reviver sua aventura de 1951. Ele sabia onde encontrar o vírus, pois já o tinha feito antes e agora a ciência evoluíra o suficiente para isolá-lo. Em agosto de 1997 Hultin estava novamente diante das covas em Brevig. Lá encontrou o corpo de uma mulher de cerca de 30 anos que já se encontrava em decomposição, porém boa parte de seu corpo ainda estavam incrivelmente preservada, inclusive seus pulmões totalmente congelados. Ele a chamou de Lucy. Hultin retirou seus pulmões e deles, amostras que foram colocadas num fluido fornecido por Tautenberg para que o vírus não se deteriorasse. As amostras de Lucy confirmaram o trabalho de Tautenberg. O mundo agora conhece o vírus da Gripe Espanhola, o H1N1.


A GRIPE ESPANHOLA NA TELEVISÃO

O filme exibido na BBC em 2009, A gripe espanhola - Os mortos esquecidos, relata os heróicos esforços para combater a segunda onda mortal da gripe que assolou a cidade inglesa de Manchester em 1918. O protagonista foi o Dr. James Niven, Diretor de Saúde de Manchester por 30 anos. Este drama teve como cenário o período após o armistício, quando milhões de soldados exauridos pela guerra regressavam a seus lares.

3 comentários:

  1. Excelente artigo. Resta saber, a titulo de retórica, se o esforço de cientistas na busca pelo vírus de tão maldita doença tem o foco no bem da humanidade ou o lucro fácil de laboratórios farmacêuticos, ao custo de que preço.

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  2. Excelente reconstrução, mas faltou mencionar a possibilidade de que a taxa de mortalidade tenha sido artificialmente aumentada pelos médicos com a administração de altas doses de aspirina. Na época desconhecia-se a toxicidade das doses administradas e a patente da aspirina havia acabado de perder a validade provocando um verdadeiro furor de fabricação e venda pela indústria farmacêutica. Imaginem como comparação nos dias de hoje, quando ocorrem as temporadas de dengue se só houvesse a aspirina para ser usada como antitérmico e analgésico e os médicos não soubessem da interação adversa entre doença e remédio ? Ref. http://cid.oxfordjournals.org/content/49/9/1405.full

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