sábado, 5 de dezembro de 2009

ALCATRAZ, A "ROCHA" INEXPUGNÁVEL DE SAN FRANCISCO


          As águas plácidas da baía de San Francisco (Califórnia, USA) refletem não só a luz dos “portões dourados” do maior porto natural do mundo, e um dos mais importantes na conquista do litoral “pacífico” norte-americano, mas também iluminam histórias inesquecíveis. Impossível passear pelas proximidades do píer 39 (onde embarcavam os presos) sem perceber a presença ruidosa dos hóspedes marinhos que ali se abrigaram durante o terrível terremoto 1989 e nunca mais foram embora: os leões-marinhos. Da mesma forma, ao olhar para o horizonte a partir deste píer, a presença da “Rocha” estimula pensamentos hollywoodianos dos mais fantásticos. Refiro-me a Alcatraz, a rocha de 12 acres que aflora das águas da baía de San Francisco e que abrigou o presídio federal mais famoso da história norte-americana e, talvez, do Mundo. Sua existência concebida para os “incorrigíveis” inspiraria, anos depois de seu fechamento, o imaginário de Hollywood nos mais diversos filmes.




           Em 1850 foi criada uma base militar na ilha de Alcatraz que persistiu até 12 de outubro de 1933, quando foi adquirida pelo Departamento de Justiça dos EUA. Nesta ocasião suas instalações foram convertidas para abrigar os presos incorrigíveis do sistema penal norte-americano. Terminadas as obras de conversão, foi inaugurado como presídio federal em primeiro de janeiro de 1934.

            Alcatraz adquiriu notoriedade por ser considerada inexpugnável, sendo levados para lá os presos incorrigíveis, insociáveis e os de grande possibilidade de fuga (devido serem membros de organizações criminosas poderosas). De fato, este presídio oficialmente nunca registrou uma fuga bem sucedida. Todos que tentaram terminaram mortos a tiro ou afogados nas águas da baía de San Francisco (mas pode ter havido uma exceção!).
            Embora a segurança fosse impecável, as instalações não propiciavam facilidades para a manutenção de um presídio de máxima segurança, daí seu custo muito elevado. Adaptar as instalações daria um custo maior do que construir novo presídio de segurança máxima. Por este motivo em 1963 optou-se por desativar o presídio de Alcatraz, sendo fechado a 21 de março daquele ano.
            Os presos famosos que emprestaram notoriedade e fama a este presídio, bem como a  geografia privilegiada de Alcatraz transformaram-no num ícone entre as penitenciárias do mundo todo. Atualmente, ao chegar no píer 39 da baía de San Francisco você pode não só vislumbrar sua magnífica silhueta mas, também, embarcar num ferryboat para conhecer de perto, e por dentro, as celas dos presos mais famosos e perigosos dos EUA. Ali funciona o museu do presídio de Alcatraz.
            Mesmo como museu, Alcatraz continua povoando o imaginário cinematográfico, é o caso do filme A Rocha (de 1996), cujo enredo se passa no museu ex-presídio e lança graves ameaças à cidade de San Francisco.


Alguns nomes que fizeram com que Alcatraz fosse Alcatraz:
THE BIRDMAN OF ALCATRAZ - AZ nº 594
            Robert Franklin Stroud, figura enigmática, foi certamente o detento mais conhecido deste presídio. Assassino cruel, insociável e incapaz de medir qualquer consequência de seus atos. Sua história começou no Alasca em 1909 quando assassinou brutalmente um barman que não havia pago os serviços de uma prostituta que ele explorava. Após o assassinato roubou-lhe o dinheiro para cobrir a dívida devida a ele e a prostituta. Em 1911 foi condenado por homicídio culposo e enviado para cumprir pena numa penitenciária federal na ilha de McNeil, no estado de Washington. Depois de diversos atos violentos e um acréscimo de pena de seis meses, foi transferido para a penitenciária federal de Leavenworth no estado do Kansas. Lá continuou com sua atitudes agressivas aterrorizando os demais detentos, até que em 1916, após recusar a visita do seu irmão, golpeou um guarda até a morte na presença dos 1.100 presos da penitenciária. Assim, foi condenado por assassinato em primeiro grau e sentenciado a morte. Depois de muitas súplicas de sua mãe diante de todas as autoridades, o Presidente Woodrow Wilson comutou sua pena em perpétua, sem possibilidade de condicional. Baseado nas suas atitudes imprevisíveis e de difícil gerenciamento, foi colocado na unidade de segregação, onde deveria cumprir sua pena em total solidão para o resto da vida.
Robert Flanklin Stroud fichado em Alcatraz
            Stroud passou trinta anos nesta penitenciária e, neste tempo, desenvolveu um interesse peculiar por canários, após encontrar uma destas aves ferida na área de recreação. A criação de pássaros foi vista como uma possibilidade de socialização, desta forma lhe foi permitido inicialmente criar canários em sua cela e, posteriormente, como ficou notória a sua habilidade com pássaros, foi-lhe autorizado montar um laboratório de estudos destes animais, dentro de sua própria cela. O resultado foi a publicação de dois livros sobre doenças e tratamentos destes pássaros. As pesquisas de Stroud, bem como seus métodos de cura, são ainda hoje discutidos quanto a real eficácia, contudo suas observações realmente contribuíram para outros estudos que beneficiam pesquisas sobre este tipo de ave. Depois de muitos anos a frente de seu laboratório informal, autoridades descobriram que muitos dos equipamentos solicitados eram para a produção de bebida alcoólica para seu consumo. Assim, em 1942, o célebre “Birdman” foi transferido para Alcatraz, onde cumpriu mais 17 anos de prisão, dos quais seis foram passados no isolamento do Bloco D e mais onze no hospital da prisão.
            Sua passagem por Alcatraz serviu grandemente para agregar notoriedade ao presídio, mas a Inexpugnável Rocha não permitia que nenhum preso desenvolvesse seu gênio criativo, nem para o bem nem para o mal. A Stroud nunca lhe foi permitido criar qualquer tipo de pássaro ou fazer qualquer experimento em Alcatraz.
            Em 1959, Robert Stroud, devido suas condições físicas, foi transferido para o Centro Médico para Prisioneiros Federais em Springfield, Missouri, onde morreu em 21 de novembro de 1963.
            O binômio Birdman-Alcatraz mexeu com o imaginário hollywoodiano, sendo produzido um filme de grande sucesso, Birdman of Alcatraz, estrelado por Burt Lancaster. Lancaster receberia a indicação para o Oscar de melhor ator no papel de Robert Stroud.


          
Acima, Burt Lancaster vive Robert Stroud em Birdman of Alcatraz. Abaixo, os livros de autoria de Robert Stroud sobre doenças dos canários e de pássaros.

AL CAPONE – AZ nº 85

AL Capone, foi o detento de maior glamour dentro de Alcatraz, seus feitos criminosos na liderança de sua organização em Chicago são mundialmente conhecidos e, da mesma forma que outros criminosos famosos, também emprestou sua fama ao presídio de Alcatraz.
            Filho de imigrantes italianos Alphonse Capone iniciou sua vida criminosa no Brooklyn (Nova Yorque). Entre a infância e adolescência participou de pelo menos duas gangues e finalmente ingressou numa organização criminosa conhecida como Five Points Gang, trabalhando para o gangster Frank Yale. Em 1918 foi transferido para um ramo da organização em Chicago, comandado pelo braço-direito de Yale, John Torrio, passando a ser seu protegido. Quando Torrio foi assassinado, Capone assumiu a organização em Chicago e demonstrou ser capaz de rapidamente expandir os negócios e transformou-a na organização criminosa mais poderosa dos EUA. Durante a década de 20 controlou os negócios de venda de bebida (durante a Lei Seca), destilarias, cervejarias, casas de jogos, prostituição, etc. Sua organização chegou a faturar mais de 100 milhões de dólares anuais. Foi acusado de envolvimento com diversos crimes de assassinato, contudo seu senso perspicaz permitia-lhe não deixar rastros legais. Era tido como cruel e impiedoso com quem se colocasse no seu caminho.

            Ironicamente Eliot Ness, a frente dos chamados “Intocáveis”, desmantelou seu império de crimes, não por assassinatos ou negócios ilegais como jogo ou bebida, mas com a acusação de sonegação de impostos.
            Al Capone foi condenado a onze anos de prisão e cumpriu seu primeiro ano na penitenciária federal de Atlanta (4 de maio de 1932). Lá viveu numa pequena cela que, no entanto, contava com o máximo conforto possível. De lá também dirigia seus negócios e diz-se que Capone tinha mais poder na penitenciária do que os próprios mantenedores da mesma. Sua sorte mudou com a inauguração de Alcatraz. Logo foi transferido, sendo um de seus primeiros internos, o de número 85. O duro regime de Alcatraz isolou-o e tirou-o definitivamente dos negócios criminosos.

            Em Alcatraz, Capone desenvolveu uma demência decorrente de sífilis (1938), a qual se recusara tratar. Com o agravamento da doença teve de cumprir o restante de sua pena no hospital do presídio. Vários exames realizados com o líquido da coluna cervical de Capone indicavam danos neurológicos e cerebrais irreversíveis. A imprensa chamava o fato de “insanidade causada por encarceramento em Alcatraz”. Ao término da pena de reclusão, foi transferido, em 6 de janeiro de 1939, para Terminal Island (Carolina do Sul), uma casa de correção federal a fim de cumprir seu último ano de pena. Foi solto em 16 de novembro daquele ano e morreu em janeiro de 1947.
            Pode-se considerar que a passagem de Al Capone por Alcatraz foi um tributo ao isolamento e a inexpugnabilidade da “Rocha”.
No cinema foi representado por diversos atores famosos como Wallace Berry, Paul Muni, Barry Sullivan, Rod Streiger, Neville Brand, Ben Gazzara, Robert De Niro, Marlon Brando e Al Pacino.

Robert De Niro personifica Al Capone em “Os Intocáveis”.

A FUGA DE ALCATRAZ
            Oficialmente nunca houve uma fuga bem sucedida de Alcatraz, todos os detentos que tentaram foram recapturados ou encontraram a morte sob os tiros certeiros dos guardas ou por afogamento nas traiçoeiras correntes da baía de San Francisco. No entanto, uma tentativa de fuga em especial nunca foi totalmente esclarecida e pode ter ocorrido de fato. Trata-se do audacioso plano de um trio de assaltantes de banco que estiveram presos em Atlanta e foram transferidos juntos para Alcatraz. São os irmãos Clarence e John Anglin e Frank Lee Moris. Os três detentos levaram vários meses elaborando um engenhoso plano de fuga.
            Em cada cela existia uma pequena abertura, para ventilação, de cerca de 30 x 20 cm, protegida por uma tela metálica. Utilizando utensílios de cozinha eles alargavam diariamente a entrada de ar, raspando pacientemente o concreto a volta, num trabalho que durou sete meses. Para esconder o trabalho que faziam, reposicionavam uma grade modelada em papelão substituindo a de metal.
            Para o dia da fuga prepararam cabeças, modeladas com uma mistura de sabão e cimento, devidamente pintadas com seus kits de pintura fornecidos para trabalhos artísticos, e ornadas com cabelos verdadeiros retirado da barbearia. 

            Na noite de 11 de junho de 1962, o trio posicionou as cabeças falsas em suas camas e saíram pela ventilação pouco depois da contagem de presos das 21:30h. Do duto de ventilação subiram para o forro. As barras de ferro que impediam a passagem foram cortadas com uma espécie de furadeira construída a partir de um velho ventilador. Do forro do teto desceram já para fora das instalações. Transpuseram a cerca do perímetro interno e aproximaram-se da água para inflar os botes confeccionados com capas de chuva. Desapareceram sem que qualquer guarda ou preso percebesse e desse o alarme até a chamada das 5h.

           Ironicamente aquela noite foi de condições não usuais para águas da baía de San Francisco. Havia uma correnteza para fora da baía de cerca de oito nós e a temperatura da água encontrava-se em torno dos 12 graus Celsius. Presume-se que não era possível nadar até a margem da baía e com isso tenham morrido afogados. Seus corpos nunca foram encontrados. Quatro dias depois foi encontrada uma pequena bolsa com fotos flutuando próximo a um pilar da ponte Golden Gate; as fotos eram ligadas a Clarence Anglin.
Da esquerda para a direita, Frank Lee Morris, Clarence Anglin e John William Anglin.
            Esta possível fuga espetacular também foi representada pelo cinema com o filme “A Fuga de Alcatraz”, estrelado por Clint Eastwood como Frank Lee Morris.


Baía de San Francisco

Píer 39

10 comentários:

  1. Papai, adorei particularmente este artigo. Te amo demais. bjs. Nina .

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  2. visitei essa prisao em dezembro de 2009 e fiquei impressionado com tantas historias famosas e seus personagens que fugiram e nunca foram encontrados.
    ANTONIO CARLOS FRANCO DE OLIVEIRA
    NOVA FRIBURGO-RJ-BRASIL

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  3. Fabricio Bortone6 de abril de 2010 06:39

    Parabéns por esse topico rico em informações e detalhes, até então conhecia alcatraz apenas por filmes e é de se admirar a capacidade do ser humano mesmo nas mais remotas condições.
    Fabricio Bortone
    Perdões-MG

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  4. Muito bom e completo!!!

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  5. Muito bom o artigo, parabéns!

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  6. TCel. Muito legal esse artigo, ache fantástico! parabéns. Charles.

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  7. Tudo muito bem explicado e com rico detalhe nas informações obrigado.

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  8. Assisti ao filme essa semana. Seu texto é muito enriquecedor.

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  9. Conheci Alcatraz agora em fevereiro de 2016.... sensacional ver os detalhes de toda história! Vale a pena a visita com ctza!

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